Ostentação

Antes de mais nada, devo dizer algumas coisas sobre este blog, e talvez você não tenha saco para ler o post a partir daqui, então prepare-se, pois este vai longe.

É muito difícil alguém reclamar de alguém que mostra sua opinião quando o assunto é arte. É algo que vem de você, assim como vem de mim, e cada interpretação parte de um caminho diferente para cada um. Você não pode me dizer que meu gosto musical é ruim, nem eu (apesar de talvez achar) posso falar isso de você, mas é uma opinião, e assim como seus gostos, temos que nos respeitar.

Mas em muitos casos, esse individualismo das opiniões acaba gerando um certo desconforto quando estas vêm a tona. Esse blog não tem o intuito de ser imparcial, não estou redigindo um texto jornalístico, mas sim dissertando sobre aquilo que gosto e penso, então qualquer ofensa que você possa sentir lendo esse post sinceramente não faz sentido para mim. Se você tem uma opinião diferente, favor postar um comentário ou me mandar um email. Obrigado.

 

 

A opinião

Até ontem, não sabia da denominação do assunto sobre o qual vou falar hoje, e sinceramente, não havia em mim a menor vontade de aprender sobre o assunto, mas acho que para falar do mesmo, preciso aprender um pouco e ouvir o que o outro lado tem a dizer. Não escondo de ninguém que considero o Funk brasileiro um dos piores (se não o pior) gênero musical já inventado pelo homem. E isso você pode generalizar ad infinitum. Para mim, as letras não nos ensinam e nem nos passam nada interessante ou relevante, a “melodia” de cada música, se não a mesma, é, na minha opinião, mais barulho do que melodia em si. Nunca vi um “MC” que saiba cantar ou compor uma música, e, para piorar, com o passar dos anos, chegando as telas através de videoclipes, estes conseguem ser ainda piores que todo o resto.

 

O objeto em questão

Mas deixando um pouco de lado a minha opinião, vamos falar um pouco do que é essa “Ostentação” que compõe o título deste post. Como eu disse, não sabia até hoje que havia mais de uma classificação para o gênero musical Funk. Para mim, eram todos iguais, e só mudavam a letra, e o conteúdo de cada uma. Já vi sobre sexo, já vi sobre tráfico, sobre uma vida melhor, até sobre religião, e, nos últimos tempos, ouvi o que os próprios “Funkeiros” chamam de Funk Ostentação.

Para Bio G3, cantor de funk paulista, o Funk Ostentação é uma forma de expressar o sonho dos moradores das comunidades de ter algo. Segundo ele e outros, O foco pelo luxo traz uma mudança na cultura: o “patrão” não é necessariamente um criminoso, mas quem se deu bem na vida. Pano, carro e mulher falam mais alto do que pistolas e drogas.”

Essa e outras frases surgiram de um documentário criado por Konrad Dantas, conhecido como Kondzilla, produtor audiovisual que produziu mais de 50 videoclipes no passar do ano, sendo a grande maioria para o funk paulista. O média-metragem conta em 36 minutos a rotina de quem, segundo ele mesmo, “subiu a serra de Mégane e cordão de ouro para ganhar a Capital e renovou a trilha sonora da juventude da periferia paulistana.”

O estilo, como o próprio nome já diz, fala da busca, ou até mesmo do estado atual, pelo status e sucesso, onde mulheres, carros chiques e roupas de marca são o auge da vida de uma pessoa e o sonho do jovem da periferia. O vídeo você pode ver logo abaixo.

Quando era ruim ser das classes C e D e que você não arranjava emprego por morar em uma favela, o grosso da manifestação cultural produzido nas comunidades tinha como interesse o protesto, a reivindicação, a indignação pela sociedade desigual na qual eles estavam vivendo. Quando a vida das pessoas começa a melhorar, o discurso dessas pessoas muda para o de celebração. Não que ainda não haja motivos de protesto, mas o sentimento de melhora de vida é muito maior do que o de dez anos atrás. E o brasileiro gosta de celebrar isso cantando e dançando”

Renato Meirelles, diretor do Data Popular

 

A crítica

Muito complicado falar disso sem ser um tanto preconceituoso em relação ao gênero musical, mas devo dizer que, para o azar dos meus ouvidos, vi o documentário acima até o final, e após uma longa reflexão, visto que eu havia visto o video ontem, resolvi escrever esta crítica.

Se esse é o futuro do funk , como contesta o Coletivo Action (site especializado em cultura negra), me levo a crer que estamos fadados a viver em uma sociedade onde boa parte da população considera carros, dinheiro e mulheres de vestidos curtos o auge e o sinônimo do sucesso. Em uma sociedade onde, independente do que você faz ou os meios que te levam a este patamar, ostentar seu cordão de ouro e a quantidade de mulheres no seu carro é mais importante do que ser relevante socialmente, que por sinal, pior ainda, se torna relevante para determinadas classes sociais.

Em nenhum momento, de nenhuma música que ouvi (e foram várias, infelizmente), ouvi algum sinal da presença de fatores como educação e cultura presente nas letras. A única “cultura” que se prega é a da própria ostentação, é a da vida fácil e sem trabalho, onde é tudo curtição e, um pouco mais inconspícuo que as letras dos MC Catra da vida, sexo.

Eu sei, faz parecer que eu sou um completo idiota, defensor da moral e da boa conduta familiar, o que não é verdade. Só enxergo um pouco mais além no fato de uma música ser um objeto de entretenimento.  Além disso, ela [a música] é um formador de opinião, e, querendo ou não, a cabeça de vários ouvintes é moldada de acordo com aquilo que ouvem no decorrer de suas vidas, ainda mais como crianças.

Ver pessoas que supostamente são “bem de vida”, em seus carros de mais de 100 mil reais, com várias mulheres, posando com dinheiro e jóias, para uma  criança, acaba se tornando objeto de desejo, por uma vida como aquela, onde a possibilidade de ter tais coisas projeta em sua mente algo melhor para sua vida, mas será mesmo que se resume a isso? Quais meios essa criança vai decidir buscar para alcançar tais coisas? Estudos? Trabalho? Esforço? Duvido muito. Puxando um pouco mais além, nos outros “estilos” de funk que vemos por ai, e que também são ouvidos pelas mesmas pessoas, parece uma sentença matemática simples. Dinheiro fácil, dinheiro rápido. Não existe apologia ao tráfico ou a qualquer crime nas letras do Funk Ostentação, mas será mesmo que isso não é passado, de forma ou de outra, pro ouvinte?

Parece uma sentença matemática simples. Dinheiro fácil, dinheiro rápido.”

Ainda pior que projetar o crime como futuro e presente, é projetar o que ele pode te oferecer, encantar as pessoas com os prazeres do mesmo. Sem falar de balas, de polícia, de confronto, de armas ou drogas, fica muito mais fácil você se iludir perante a imagem de bon vivant. E ainda pior, passar a “ostentação”, o ato de literalmente se achar foda por ter bens materiais.

No final, sua carreira, seu diploma, sua família, seus amigos e suas conquistas como cidadão são muito menos importantes que o carro na sua garagem e a mulher que você pega na balada.

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